terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Cap. 19 HS



 Ela virou-se para olhá-lo e não conseguiu entender por que estava tão sério.
— Meu Deus, isso é algum tipo de pedido? — ela riu, esperando que o riso disfarçasse o que estava sentindo.
— Não, não é. Não se incomode, é só que eu acho que é uma pessoa de bom senso e pensei que podia confiar em você. Mas se não quer responder, não tem importância.
— Desculpe, eu deveria ter percebido que o assunto era sério para você. Está fazendo a pergunta em caráter pessoal ou está se referindo, às mulheres em geral?                                                                             
— As duas coisas. Não estou querendo entrar na sua intimidade. Mas é que preciso resolver alguns problemas e tenho que ter mais informações.
— Está certo — ela disse, respirando fundo. — Acho que a primeira coisa é amor...
— E o que é amor? Isto é, amor mesmo?
O tom dele quase amedrontou-a, mas havia curiosidade e urgência nas perguntas. Pensou, e não encontrou nada do assunto. O pior era que não iria conseguir responder a nada, se não se envolvesse no assunto.
— Acho que é tudo o que a gente quer que seja.
— Muito vago — ele disse, baixinho.
— Concordo, mas amor não é uma coisa muito específica. Inclui respeito, consideração, gentileza, confiança...                                         
— Amizade também inclui tudo isso — ele respondeu, rindo. — que torna o amor diferente?
— Não sei se é assim tão diferente — ela mentiu. — Isto é, não sei se você pode amar alguém que não respeita. Eu não poderia.
— Ótimo. Eu conheço muitas mulheres que respeito bastante, que, considero como amigas, mas sei muito bem que não as amo.
— Bem, se já sabe tanto, por que está me perguntando? - (S/N) estava ficando zangada.
— Se eu achasse que sabia tanto, não teria perguntado. Droga! Será que você nunca consegue conversar sem brigar?
— Parece que não, e lamento... não tive a intenção de começar nenhuma briga. Mas não sei como espera que eu responda. Suas perguntas são muito vagas. E amor significa coisas diferentes para pessoas diferentes.
— Bem, então, o que significa para você? Acho que pode me explicar isso.
 Claro que ela não podia, e ia ter que disfarçar. Não ia falar sobre paraíso e o inferno que ele criava com pequenas coisas, como um olhar, sua presença, um toque, a necessidade que ela tinha de estar com ele naquele momento, sem nada que os separasse.
— O que faz você pensar que já estive apaixonada? Acho que a amizade tem muito a ver com o amor. Sei que os meus pais eram os melhores amigos, um do outro. Mamãe costumava dizer isso e tenho certeza de que era sincera. Eles eram muito unidos, participavam da ida um do outro, mas não eram dependentes. Mas isso não responde a sua pergunta, porque na verdade estou falando de casamento, e não de amor.
— E as duas coisas não andam juntas?
(S/N) teve que olhar bem, para ver se ele não estava rindo ao dizer aquilo.
— Agora você está ficando complicado.
— Não, não estou. Você poderia amar um homem, sem querer se casar com ele?
— E agora, você está sendo pessoal? Não, eu acho que não. Só se houvesse algum impedimento. Se ele fosse casado, por exemplo.
— Hummmm! — ele continuou dirigindo em silêncio durante algum tempo. — Acha possível amar alguém que não retribua o seu amor?
Oh sim! O coração dela respondeu. Mas suas palavras foram mais cuidadosas:
— Acho que sim — respondeu, baixinho, olhando pela janela. — Mas não acredito que durasse por muito tempo; o amor não correspondido deve ser algo bem frágil. — Mentirosa, mentirosa! Dizia seu coração.
— Certo. — ele parecia não ter visto que ela apertava as mãos com força e que tinha ficado pálida. — Então, vamos conversar um pouco sobre o casamento. Acha a segurança importante para as mulheres em geral?
— Bem, depende. Certamente, se você quer ter filhos, tem que ter segurança. Eles precisam ser bem-educados, vestir-se decentemente e tudo o mais. Mas acho que não era disso que você estava falando...
— Não era. Eu queria saber o quanto as mulheres esperam dos homens. Sobre esse negócio de carreira, status. E se tudo isso não for importante para ele?
— Digamos, para um homem que usa ternos de trezentos dólares e dirige um carro esporte?                                                                
— Agora, você é que está levando para o lado pessoal. Mas não se esqueça de que não estou tão amarrado à minha carreira como você pensa. Afinal, o jornalismo não é bem uma carreira para pessoas casadas: há muito trabalho para ser feito tarde da noite, muitas viagens pelo país e pelo mundo.
— Parece que você está querendo se convencer de alguma coisa — ela disse, quase sem pensar.
— Talvez esteja mesmo. E já que você é tão esperta, imagine que eu esteja querendo me casar. Que tipo de marido acha que eu daria?
Sentiu um aperto no estômago; aquela era uma pergunta que gostaria de poder evitar. Mas já que não podia...
— Com certeza um marido terrível. — Vendo o olhar zangado dele, corrigiu: — Não, desculpe, eu só estava brincando. Você é muito gentil, quando quer, e acho que é sincero com as pessoas de quem gosta.
— Acha? Isso quer dizer que não pensa que eu gosto de você, que não sou gentil o suficiente.
Ela estava encurralada. Não podia responder.
— Acho que você trata muito bem às crianças e cachorros. Mas você é vingativo? Isso seria um defeito.
— Vingativo? Não, acho que não. A vingança é um desperdício de emoção. E não sou cruel. Pelo menos, não de propósito. Mas sei que sou duro com as pessoas de quem espero alguma coisa. Por que acha que não a trato com bastante gentileza?
Ela corou. Não podia fazer nada; foi forçada a responder:
— Eu nunca disse isso.
— Disse, indiretamente. Pare de fugir.
— Não estou fugindo. Só que acho essa discussão inútil. E, se não me disser por que ficou tão fascinado, de repente, por esse assunto, não vou mais querer conversar.                                                              
— Acha que eu a trato asperamente no trabalho? É isso?
Ela ficou calada, olhando pela janela. Finalmente ele confessou:
— Está bem. Acho que você precisa saber. Estou planejando largar o emprego.
— E vai se casar, pelo que entendi? — ela não conseguiu se controlar.
— Eu não disse isso. Mas não nego que haja uma possibilidade remota.

— Então, qual é o problema? Por que está me fazendo perguntas? Não sou nada sua, e não é da minha conta se você vai sair do emprego ou não. Por que eu devia me importar?

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