
— Não perguntei se você se importava —
ele respondeu, irritado. Só queria o seu conselho sobre algumas coisas, mas já
vi que não vou conseguir nada.
— Bem, pode ser que consiga, se disser
logo o que quer saber, e parar com essas perguntas bobas.
— Não achei que fossem perguntas bobas.
— Bem, eu achei! O modo como você me
trata no escritório, não tem nada a ver com o fato de que vai sair do emprego e
se casar, e você sabe disso. — A raiva agora estava descontrolada.
— Está bem, lamento — ele disse, mas num
tom de quem parecia não lamentar nada. — Posso tentar só mais uma vez?
(S/N) concordou, mesmo sabendo que só ia
ficar mais magoada.
— Está bem. Mas não vamos mais falar das minhas
idéias pessoais.
— Certo, Eu quero passar uns dois anos
como freelancer. Viajar, viver das economias que fiz, escrever o que
quiser, ao invés de escrever apenas o que o público gosta.
— E vai se casar antes? — Ora, por que
tinha que fazer aquela pergunta daquele jeito? Ela estava pedindo outra briga.
— Eu disse que estava só pensando no assunto
— Ele respondeu. — Isso pode continuar sendo apenas uma idéia, se você pensar
na insegurança econômica. Eu fiz alguns investimentos e provavelmente poderei
viver sem trabalhar o resto da vida, mas o meu dinheiro só vai começar a dar
lucro daqui a uns cinco anos.
— Sinto muito, mas continuo não
entendendo o seu problema. Há muita gente casada vivendo com muito menos do que
aquilo que você vai ganhar como freelancer.
— Talvez, mas será difícil pedir uma
mulher em casamento durante esses primeiros cinco anos, sem que ela possa ter
uma casa. Pois estou planejando viajar por todo o país, ficando pouco tempo em
cada lugar.
Oh, ela sabia que o seguiria a qualquer
parte. Mas, e Cher Lloyd?
— Acho que você está sendo bobo — ela
disse, finalmente. — Está dando importância demais para a segurança.
— Talvez, mas, e se a mulher tiver uma
carreira? Como posso esperar que ela largue tudo para seguir o meu sonho? Não
me parece muito correto.
Não aguentava mais.
— Bem, você precisa tentar perguntar a
ela. Se fosse comigo, não me preocuparia muito com isso, porque a minha
carreira está só começando, mas uma outra mulher pode pensar de modo diferente.
Certamente, vocês terão que fazer algum tipo de acordo, mas será fácil, se
vocês se amarem de verdade. Para isso é que serve o casamento: para que as
pessoas se entendam. A coisa não funcionaria, se fosse em benefício de um só.
— Você desistiria da sua carreira para se
casar?
— Pensei que tínhamos combinado não levar
a conversa para o lado pessoal. — queria, desesperadamente, mudar de assunto.
— Eu não tenho que me preocupar com esse
assunto. Se preencher as condições do testamento do meu tio, estarei com o
futuro garantido. Portanto, minha carreira não é tão importante, do ponto de
vista financeiro.
— Quer dizer que desistiria do
jornalismo, depois de todos os problemas que teve para começar? — Harry
continuava com os olhos na estrada, mas (S/N) percebeu que ele estava
espantado, quase atordoado.
— Eu não disse isso. Adoro o meu
trabalho. Mas não vou precisar depender do meu salário como qualquer outra
mulher, depois que eu tiver preenchido as condições do testamento. — E
explicou, em detalhes, quais eram as condições.
— Que estranho! — Harry comentou. — Eu entendo
as razões do seu tio. Na verdade, cinco mil dólares de renda anual não são
suficientes para você viver. Terá que trabalhar, a não ser que resolva ser dona
de casa.
— E acha que as donas de casa não
trabalham?
— Não foi o que eu quis dizer, e você sabe.
No entanto, se for esperta e investir bem, poderá ter uma boa renda, sem mexer
no capital.
— Ótimo — respondeu, rindo. — Talvez eu
deva colocar um anúncio no jornal: "Solteirona com cinco mil dólares de
renda anual procura um marido". Com sorte, conseguirei algum jornalista
que precise de alguém para financiar a sua carreira de freelancer.
Só o silêncio se seguiu ao comentário
dela. Quando olhou para Harry, ela percebeu que tinha ido longe demais. Muito,
muito longe, ficou furiosa por sua estupidez e procurou as palavras certas para
pedir desculpas.
— Sinto muito, eu não quis... — Parecia
falando sozinha. Ele estava pálido de raiva e acelerou mais e mais, para
descarregar o que sentia. Finalmente, ela não aguentou mais.
— Pare esse carro, senão eu salto agora
mesmo! — gritou, zangada. Ele a ignorou e ela se atirou contra a porta,
abrindo-a. No mesmo instante, ele a segurou, fechou a porta e começou a
diminuir a velocidade.
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