— Onde vocês guardam os jornais antigos? — Viu que ele a olhou, surpreso.
— Na última gaveta do arquivo, mas é melhor você almoçar primeiro — ele respondeu, indicando o arquivo ao lado dela.
— Não estou com fome — e era sincera.
— Coma. Não vai ter outra chance por um bom tempo. Ou está tão preocupada em manter a linha que pretende fazer jejum?
— Tenho um apetite perfeitamente normal. Só que, no momento, não estou com fome. Posso ir buscar algo para você, se estiver ocupado demais. — Não queria despertar o ódio dele novamente.
— Estou sempre ocupado. Portanto, saia logo daqui e vá almoçar, em vez de ficar tentando me distrair.
— Não estou tentando isso. E já disse que não tenho fome.
— Se não tem, deveria ter. — Levantou os olhos do jornal. — Por falar em distração, sabe que a sua calcinha está aparecendo?
— Mas eu... — (S/N) deu um pulo, puxando a saia.
Ele caiu na gargalhada. A moça ainda ouviu aquele riso debochado, mesmo depois de sair correndo pelo corredor.
Depois de comer um sanduíche e tomar chá, ela achou que já estava calma o suficiente para voltar. Harry Styles ignorou-a solenemente. (S/N) abriu o arquivo e ficou lendo os jornais velhos.
No entanto, eram notícias demais para assimilar, e (S/N) começou a divagar sobre os motivos que a tinham levado a assumir aquela estranha posição no departamento de Harry Styles.
Ha um ano, havia encontrado o tio Jonh, que mudara para a Austrália bem antes de ela nascer. Jonh era quinze anos mais velho do que seu pai e emigrara quando o irmão mais novo ainda eslava na escola. Durante alguns anos ele trabalhara bem ao norte de Queensland como mineiro, nos desertos do oeste. Conhecera a Austrália de ponta a ponta. Finalmente, Jonh entrara para o jornalismo e acabara em Camberra, como colunista do principal jornal e comentarista de televisão. Apesar de ser inglês, tinha ignorado sua terra natal, até que, doente por excesso de trabalho e bebida, sentira que a morte se aproximava.
Mas sua volta à Inglaterra só lhe trouxe desilusões. O irmão, pai de (S/N), havia morrido junto com a esposa num acidente de automóvel, no ano anterior, quando ela estava com apenas vinte e um anos. O único parente de Jonh era a sobrinha, de quem ouvira falar nas cartas que tinha trocado com o irmão.
Para surpresa dos dois, eles se deram bem desde o primeiro momento. E Jonh ficou acabrunhado com o pequeno apartamento de (S/N), que não tinha sequer água quente, e com a falta de perspectivas da moça.
— Isso aqui é um buraco dos infernos! — ele disse, cinco minutos depois de entrar no apartamento. — E você será uma boba se continuar na Inglaterra. Não há mais lugar para os jovens neste país.

A noite, ele a levou ao teatro. Jantaram em vários restaurantes elegantes e, nos dias seguintes, foram a galerias de arte e a museus.
Jonh Clarke conquistou rapidamente o coração de (S/N). Depois, que ele partiu, ela começou a tratar dos papéis para a emigração, toda animada.
— Vá de navio. Assim, vai apreciar melhor a viagem — ele havia dito. E prometeu arranjar um emprego para ela.
(S/N) começou a planejar a aventura que tinha pela frente, cheia de confiança. Além do trabalho de secretária ser mais ou menos igual em qualquer lugar, o tio havia dito que a Austrália era a terra das novas oportunidades.
Recebeu uma carta do procurador dele no dia em que devia embarcar. Era uma carta curta, dizendo apenas que Jonh Clarke tinha morrido há quatro dias e que pedira que ela não fosse informada, a não ser após o funeral, para não estragar os seus planos de viagem. No mesmo envelope vinha outra carta, avisando que ela havia sido aceita para trabalhar na ACT-TV.
Só depois de chegar ao escritório do advogado do tio é que soube da herança.
— Em resumo — o advogado disse —, Jonh queria que você desse uma chance à Austrália. Por isso, dividiu a herança em duas partes. Ele lhe deixou uma fonte de renda garantida, o carro e coisas pessoais, que receberá imediatamente. Mas a maior parte do dinheiro, cinquenta mil dólares, vai para um fundo de investimentos. Você precisa ficar dois anos neste país, trabalhando para se sustentar, para poder receber o dinheiro. Ele insistiu também para que você visitasse as cidades principais. Já separamos o dinheiro para essas viagens. (S/N) apaixonou-se por Camberra quase à primeira vista. Achou que a herança tinha sido um gesto gentil do velho que tanto admirava. A idéia de trabalhar dois anos lá não a deixou preocupada, até que encontrou Harry Styles.
Só de pensar nele, sentiu raiva. Levantou-se e saiu da sala do noticiário. O olhar de Harry a acompanhou.
— Aonde pensa que vai, com toda essa pressa? — ele perguntou.
— Vou ver o... o gerente-geral. Quero esclarecer esta situação de uma vez por todas.
Se esperava uma resposta irritada, ficou desapontada. Ele sorriu e disse:
— Então, por que não me pergunta?
— Esta manhã, você parecia nem saber que eu estava trabalhando aqui. Tudo o que sabia era que não me queria. Francamente, sr. Styles, não quero ficar num lugar em que não sou desejada. Tenho que falar com o gerente-geral, e, se houver o tal negócio de pistolão de que me falou, vou me demitir imediatamente.
— Não se incomode — ele disse, baixinho, e no começo ela não acreditou no que tinha ouvido. Olhou-o curiosa. — Eu disse: não se incomode. Já falei com o gerente-geral; se precisar saber algo sobre sua contratação, pode me perguntar.
— Então, concorda que fui aceita no emprego por causa dos meus méritos?
— Vamos ver... — ele deu de ombros.
Certamente, ele sabia mais do que queria falar. Ou será que estava só tentando irritá-la?

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