terça-feira, 5 de novembro de 2013

Cap. 6 HS


Durante a refeição, a atitude mais amigável de Harry fez com que (S/N) se sentisse menos preocupada. A galinha à espanhola, com molho branco, estava deliciosa. Depois, tomaram café e um licor que ela nunca tinha provado antes. Bailey's Irish Cream, numa mistura de chocolate e coco que ela achou maravilhosa.
A hostilidade parecia ter desaparecido. (S/N) contou sobre a sua vida na Inglaterra, a visita do tio e o incentivo que ele lhe dera para que fosse conhecer a Austrália.
— Seu tio era um ótimo jornalista e um homem muito bom — ele disse. — Era muito respeitado. Não estou nada surpreso por você ter sido contratada, com esse tipo de recomendação...
A moça preparou-se para ouvir mais comentários sobre proteção, mas Harry a surpreendeu, tratando o assunto de outro modo.
— Estava falando a sério, quando disse que queria se tornar uma jornalista?
— Sim...   sim, estava. Principalmente, porque é o que você precisa. Sei que não tenho conhecimentos suficientes a não ser pelo curso noturno, mas não sou nenhuma boba: acho que posso aprender, se me der uma oportunidade.
— Não é uma vida fácil. Ainda mais para uma mulher. A carreira transforma a mulher numa pessoa muito dura, e eu acho que não gostaria de ver isso acontecer com você.
Enquanto falava, ele tocou sua mão de leve. Tão de leve, que ela achou que tinha sido ilusão. Mas seu corpo respondeu imediatamente com um arrepio. (S/N) encarou-o e ficou espantada com a gentileza que viu: parecia acariciá-la com os olhos. Ficou calada, sem coragem de quebrar a magia daquele momento.
— Acho que você pode aprender depressa, se tiver puxado a seu tio. Mas o salário é o mesmo que está recebendo agora.
— Eu quero... Oh, eu quero. Por favor, pelo menos dê-me uma chance.
— Está bem. Não sei se vai se adaptar à nossa pequena equipe. A primeira coisa a aprender é que sou eu quem toma as decisões. E não aceito bobagens, nem mesmo de moças bonitas. Também vai ter que parar de namorar os meus repórteres.
(S/N) zangou-se por um momento, mas depois viu que ele parecia sorrir.
— Sabe que não fiz isso — ela disse.
— Não? — ele riu. — Você me parece muito sedutora.
— Obrigada, mas...
Foi interrompida pela chegada de uma mulher.
— Harry querido! Pensei que tinha dito que ia trabalhar esta noite.
A moça era alta e ruiva e usava um vestido longo verde, muito revelador. (S/N) sentiu uma pontada de ciúme.
— Estou trabalhando — ele disse, procurando esconder a irritação por ter sido interrompido, e deixando bem claro que não ia apresentá-las.
A ruiva corou violentamente, antes de pedir licença e se afastar depressa.
— Ela é muito bonita — (S/N) comentou, mas só recebeu um grunhido como resposta.

 Então, após um momento de silêncio, Harry murmurou algo, e ela foi obrigada a pedir que ele repetisse.
— Uma garota tipo lenço de papel, foi o que eu disse — respondeu, ríspido.
— Desculpe, acho que não entendi.
— Não. Acho que não, já que é uma mulher virtuosa. Mas pense na frase por um minuto. Qual é a grande vantagem do lenço de papel?
— Você usa e joga fora... — (S/N) não terminou a frase. — Que coisa horrível de se dizer sobre alguém! Mas acho que essa é a sua opinião sobre todas as mulheres, não?
— Nada disso. Dou a uma mulher o valor que ela dá a si mesma. Acontece que algumas garotas parecem ter nascido para serem usadas e postas de lado. Não adianta negar.
— E que tipo de pessoa sou eu? — (S/N) perguntou, zangada. — Arranjei emprego por causa da minha competência ou pelo prestígio do meu tio? E para conservá-lo, você espera que eu me arraste e beije os seus pés, como a garota do café?
De repente, os olhos dele ficaram escuros, com um ódio que a surpreendeu. Viu que apertava os punhos com tanta força, que as juntas estavam brancas. Por um segundo, achou que o homem ia lhe dar um soco. Mas depois, ele se controlou e falou suavemente:
— Pode pensar o que quiser de mim, cara srta. Clarke, mas não gosto de ninfetas.
(S/N) levantou a sobrancelha, sem acreditar, mas Harry não pareceu disposto a dizer mais nada. Soube que tinha estragado a noite.
— Acho que gostaria de ir embora, agora.
— Como quiser — ele respondeu, fazendo sinal para pedir a conta. Minutos depois, caminhavam para o estacionamento. (S/N) parou para se despedir, mas Harry pegou-a pelo braço, deixando bem claro que ia levá-la até o carro. Ela tropeçou e teria caído, se ele não a amparasse.
— Obrigada.
— É, o chauvinismo tem suas vantagens — Harry riu. — Se você fosse um homem, eu a teria deixado cair.
— Uma coisa não tem nada a ver com a outra — (S/N) respondeu, irritada. — Só mostra que você não tem compaixão. Devia ajudar a quem precisa, sem se importar com o sexo.
— Querida (S/N), você está muito preocupada com o sexo, não está?
— Não! Não tenho nada contra o sexo no lugar adequado. Agora, por favor, solte-me.
— Por quê? Acha que aqui não é o lugar adequado?
Estava rindo dela abertamente, e (S/N) sentiu que ficava zangada, apesar do arrepio que a mão dele provocava em seu corpo.
— Não me diga que, além de chauvinista, você também é tarado e vai me atacar.

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